terça-feira, 26 de abril de 2011

UMA DAS MARIAS (DE SUA TESTEZA E DE SEU SORRISO)

Sua cabeça mantinha-se sempre erguida, e a chama de Deus estava em seus olhos. Estava freqüentemente triste, mas Sua tristeza era ternura manifestada aqueles que sofriam, e camaradagem dada aos solitários. Quando sorria seu sorriso era como a fome daqueles que anseiam pelo desconhecido, e como a poeira de estrelas caindo sobre as pálpebras das crianças. E era como um pedaço de pão na garganta. Ele era triste, mas de uma tristeza que subia aos lábios e tornava-se um sorriso. Era como um véu dourado na floresta quando o outono está sobre o mundo. E algumas vezes parecia como o luar nas margens do lago. Sorria como se seus lábios cantassem numa festa de bodas. Todavia era triste como a tristeza do ente alado que não ultrapassa no voou seu camarada.

JOSÉ DE ARIMATÉIA: DEZ ANOS DEPOIS-( As duas correntes do coração de Jesus)

Havia dois rios no coração  de Nazareno: o rio do parentesco com Deus a quem ele chamava Pai, e o rio  do êxtase que Ele denominava o reino do Além. E em minha solidão eu pensava Nele e acompanhava essas duas correntes em Seu coração. Na margem de uma encontrei  minha alma; e, as vezes, minha alma era uma mendiga e uma vagabunda, e, as vezes, era uma princesa em seu jardim. Depois, segui a outra corrente em Seu coração, e em meu caminho encontrei um homem que tinha sido agredido e roubado de seu ouro, e estava sorrindo. E mais adiante, vi  o ladrão que tinha roubado, e sobre sua face havia lágrimas não caídas. Depois cheguei a ouvir o murmúrio dessas duas correntes  em meu peito, e senti-me jubiloso. Quando visitei Jesus no dia anterior aquele em que Pôncio Pilatos e os anciãos se apoderaram  Dele, conversamos muito e fiz-Lhe muitas perguntas, e Ele respondeu ao meu interrogatório e Ele respondeu ao meu interrogatório com benevolência; e quando o deixei, sabia, que Ele era o Senhor e Mestre  deste nosso mundo. Faz muito tempo que o cedro caiu, mas sua fragancia perdura e buscará para  todo o sempre os quatro cantos da terra.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

DA MÚSICA


Filha da Alma e do Amor.
Cálice da amargura
e do Amor.
Sonho do coração humano,
fruto da tristeza.
Flor da alegria, fragrância
e desabrochar dos sentimentos.
Linguagem dos amantes,
confidenciadora de segredos.
Mãe das lágrimas do amor oculto.
Inspiradora de poetas, de compositores
e dos grandes realizadores.
Unidade de pensamento dentro dos fragmentos
das palavras.
Criadora do amor que se origina da beleza.
Vinho do coração
que exulta num mundo de sonhos.
Encorajadora dos guerreiros,
fortalecedora das almas.
Oceano de perdão e mar de ternura.
Ó música.
Em tuas profundezas
depositamos nossos corações e almas.
Tu nos ensinaste a ver com os ouvidos
e a ouvir com os corações.

O PRÓXIMO

 
Amai-vos um ao outro,
mas não façais do amor um grilhão.

Que haja, antes, um mar ondulante
entre as praias de vossa alma.

Enchei a taça um do outro,
mas não bebais da mesma taça.

Dai do vosso pão um ao outro,
mas não comais do mesmo pedaço.

Cantai e dançai juntos,
e sede alegres,

mas deixai
cada um de vós estar sozinho.

Assim como as cordas da lira
são separadas e,
no entanto,
vibram na mesma harmonia.

Dai vosso coração,
mas não o confieis à guarda um do outro.

Pois somente a mão da Vida
pode conter vosso coração.

E vivei juntos,
mas não vos aconchegueis demasiadamente.

Pois as colunas do templo
erguem-se separadamente.

E o carvalho e o cipreste
não crescem à sombra um do outro. 
Gibran Kahlil Gibran -

FALA-NOS DO AMOR.



- Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;
ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis.
E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;
ainda que a espada escondida na sua plumagem
vos possa ferir.

E quando vos falar, acreditai nele;
apesar de a sua voz
poder quebrar os vossos sonhos
como o vento norte ao sacudir os jardins.

Porque assim como o vosso amor
vos engrandece, também deve crucificar-vos
E assim como se eleva à vossa altura
e acaricia os ramos mais frágeis
que tremem ao sol,
também penetrará até às raízes
sacudindo o seu apego à terra.

Como braçadas de trigo vos leva.
Malha-vos até ficardes nus.
Passa-vos pelo crivo
para vos livrar do joio.
Mói-vos até à brancura.
Amassa-vos até ficardes maleáveis.

Então entrega-vos ao seu fogo,
para poderdes ser
o pão sagrado no festim de Deus.

Tudo isto vos fará o amor,
para poderdes conhecer os segredos
do vosso coração,
e por este conhecimento vos tornardes
o coração da Vida.

Mas, se no vosso medo,
buscais apenas a paz do amor,
o prazer do amor,
então mais vale cobrir a nudez
e sair do campo do amor,
a caminho do mundo sem estações,
onde podereis rir,
mas nunca todos os vossos risos,
e chorar,
mas nunca todas as vossas lágrimas.

O amor só dá de si mesmo,
e só recebe de si mesmo.

O amor não possui
nem quer ser possuído.

Porque o amor basta ao amor.

E não penseis
que podeis guiar o curso do amor;
porque o amor, se vos escolher,
marcará ele o vosso curso.

O amor não tem outro desejo
senão consumar-se.

Mas se amarem e tiverem desejos,
deverão se estes:
Fundir-se e ser um regato corrente
a cantar a sua melodia à noite.

Conhecer a dor da excessiva ternura.
Ser ferido pela própria inteligência do amor,
e sangrar de bom grado e alegremente.

Acordar de manhã com o coração cheio
e agradecer outro dia de amor.

Descansar ao meio dia
e meditar no êxtase do amor.

Voltar a casa ao crepúsculo
e adormecer tendo no coração
uma prece pelo bem amado,
e na boca, um canto de louvor.

Khalil Gibran

Ainda ontem pensava que não era.


 
Ainda ontem pensava que não era
mais do que um fragmento trémulo sem ritmo
na esfera da vida.
Hoje sei que sou eu a esfera,
e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim.
 
Eles dizem-me no seu despertar:
" Tu e o mundo em que vives não passais de um grão de areia
sobre a margem infinita
de um mar infinito."
 
E no meu sonho eu respondo-lhes:
 
"Eu sou o mar infinito,
e todos os mundos não passam de grãos de areia
sobre a minha margem."
 
Só uma vez fiquei mudo.
Foi quando um homem me perguntou:
"Quem és tu?"

Kahlil Gibran